Antes de tudo, havia Gotham...

Antes de tudo, havia Gotham…

Um casal e seu filho caminham por um beco escuro, em uma cidade de prédios altos e ruas sujas. Da escuridão, surge um estranho, empunhando uma arma. O pai se coloca à gente de seu filho e de sua esposa para protegê-los. É o primeiro a ser atingido pelo impacto do projétil. A mãe, em pânico, grita e é silenciada por mais um disparo. Um menino de oito anos assiste a tudo, atônito, percebendo, aos poucos, que sua vida também terminava ali, apesar do ladrão não ter atirado nele. Thomas e Martha Wayne estão mortos. Bruce Wayne, agora, é órfão.

A origem do Batman já foi contada e recontada em diversas linguagens midiáticas, desde os quadrinhos, onde esta história se originou, passando por todas as encarnações cinematográficas do personagem e, por último, na série Gotham, que iniciará em breve sua segunda temporada. Se heróis como o Homem de Ferro precisaram ter sua origem remodelada para melhor se adaptar aos contextos atuais, com Batman ocorreu o oposto: sua gênese continua cada vez mais atual e realista, infelizmente. Batman é o homem que, quando criança, testemunhou uma aterrorizante atrocidade, que mudou para sempre a sua existência e transformou este fato em um projeto de vida que mudaria para sempre a vida de sua cidade natal. Quando o personagem foi criado, em 1939, o latrocínio que vitimou os pais de Bruce Wayne se encaixava no cenário de criminalidade crescente patrocinado pela Máfia Italiana, que, conforme aprendemos na trilogia O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola, não conhecia limites para suas ações violentas. Mais tarde, nos quadrinhos da Era de Prata e no seriado que durou de 1966 a 1968, a criminalidade de Gotham passou a ser tratada como uma anomalia que, de vez em quando, ameaçava a paz de uma metrópole pacata. A maior ameaça, nesta época, era o aparecimento de malucos fantasiados com planos mirabolantes. Para detê-los, outra dupla de malucos fantasiados, mas do lado da lei – Batman e Robin – logo entrava em ação e, invariavelmente, os vencia. Na década de 1970, Dennys O’Neil e Neal Adams começaram a dar um tom mais sombrio ao personagem e, com isso, sua experiência de origem acabou se potencializando em violência e nível traumático, até chegar a seu ápice em O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller e ser amplamente explorada em Batman – Ano Um, de Miller e Mazzucheli, no final da década de 1980. São estas obras que revelarão a grande questão por trás dos assassinatos da família Wayne e da origem do Batman: o ambiente profundamente corrupto de Gotham City.

O assassinato dos Wayne

O assassinato dos Wayne

Este parece ser o grande background proposto por Gotham, seriado que estreou no ano passado: o crime que atingiu Bruce Wayne não aconteceu de forma isolada e esta abordagem faz cair por terra a fórmula simplista de bem contra o mal, como se fosse bastante simples identificar que representa um ou outro lado. Em Gotham tudo é multifacetado e complexo: o mesmo prefeito que vai à televisão dar um furioso pronunciamento contra a escalada de violência na cidade, está mancomunado com Carmine Falcone, o grande chefe mafioso local. A Polícia de Gotham, sempre com suas cadeias lotadas, faz vistas grossas a muitos crimes e a muitos criminosos, uma vez que trabalha sob a “permissão” do crime organizado. E os chefes criminosos, por sua vez, fazem questão de manter o aparelho público e judicial funcionando “bem”, para não sofrerem interferências em seus negócios. É neste cenário que chegará o policial James Gordon, designado a investigar o assassinato dos Wayne. Ao tentar desvendá-lo, sua vida entrará em uma espiral de corrupção, violência e perversidade, evelando os submundos ocultos sob as fachadas sociais, políticas e econômicas de Gotham. É pelos olhos deste policial que o espectador acompanha as narrativas da série, tendo neste ponto de vista um olhar de estranhamento ao que já se tornou naturalizado na cidade. Ao seu lado está Harvey Bullock, policial veterano de Gotham, que, após dar muito “murro em ponta de faca”, deixou-se endurecer pela realidade e passou a jogar as regras do jogo, mantendo uma reserva ética mínima para sobreviver e não arranjar brigas desnecessárias.

Neste ambiente profundamente pervertido, algumas pessoas abrirão os recônditos mais sombrios de suas almas e revelarão o pior que

Jerome Valeska, a nova face do Coringa.

Jerome Valeska, a nova face do Coringa.

elas poderiam ser. Surge, assim, ao longo da primeira temporada, um empregado oportunista que inicia uma escalada de mentira e violência para se tornar o novo chefe do crime em Gotham, o Pinguim. Surge também uma órfã, que tem seu pai morto por engano pela Polícia e começa a preferir a companhia das plantas à presença de pessoas, a Hera Venenosa. Junto a ela se encontra  a testemunha ocular do assassinato dos Wayne, uma adolescente moradora de rua, que sobrevive roubando e invadindo apartamentos, Selyna Kyle, que mais trade, se tornará a Mulher Gato. Na Policia de Gotham encontramos Edward Nigma, meticuloso perito forense que sofre de um terrível complexo de inferioridade e que alimenta uma raiva silenciosa contra os que não percebem seu brilhantismo. Ele se tornará o Charada. Há, também, o Defensor Público Harvey Dent, sempre indo a extremos em seu trabalho e que se transformará no Duas-Caras, mais adiante. E, entre outros, há o bipolar Jerome Valeska, que tem um ataque de risos ao assumir o assassinato da própria mãe. Ao que tudo indica, ele se tornará o perigosíssimo Coringa. Por isso, ao contrário do que havia sido alimentado no seriado e nas histórias da Era de Prata, os vilões de Gotham não são estranhos ao ambiente da cidade. Eles são os símbolos de toda perversão e corrupção que se tornaram o estilo de vida de Gotham City.

Estou aprendendo a controlar o medo.

Estou aprendendo a controlar o medo.

O pequeno Bruce, por sua vez, contando com a tutoria de seu mordomo, Alfred Pennyworth, inicia uma trajetória que vai do trauma à tristeza, da tristeza à raiva, da raiva ao choque de realidade e deste para perguntas cada vez mais constrangedoras sobre a maneira como as coisas funcionam em Gotham. Este itinerário, que só é possível com a orientação de um veterano de guerra que o serve como mordomo, levará Bruce a pensar com uma lógica implacável e a planejar friamente, não mais uma vingança, mas a instauração de um tempo de justiça para Gotham. Isso se dará quando, muito tempo depois, o menino, já crescido, assumirá como identidade o símbolo de um mistério que lhe causa muito mais medo que o crime: as trevas, a noite, a escuridão, o Batman!

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