Capitão América e Homem de Ferro em rota de colisão.

Capitão América e Homem de Ferro em rota de colisão.

Mitos são a narrativa dos símbolos. Símbolos são expressões de experiências de fé.

O super soldado derrota o super ditador.

O super soldado derrota o super ditador.

Na Segunda Guerra Mundial, entre tantos símbolos que um conflito com essas proporções possa gerar, criou-se o Capitão América. Mito vestido com a bandeira norte-americana e empunhando um escudo, representava, de certa forma, todos os jovens norte-americanos que haviam se alistado para defender o mundo da ameaça Nazifascista. Mais do que isso: Steve Rogers era a abnegação em pessoa, pois, mesmo sendo dispensado do exército por conta de sua frágil condição física, insiste em se alistar, chegando ao ponto de aceitar tornar-se cobaia de um experimento secreto que visava otimizar a ação militar dos Estados Unidos na guerra. Rogers se torna o primeiro e único “super soldado”: agilidade e resistência acima do normal, força sobre-humana e além de tudo, um inabalável senso de justiça, capaz de leva-lo ao sacrifício pessoal. O que quase acontece. Os Estados Unidos, assim, diziam ao mundo: no mais frágil de nossos rapazes, encontra-se uma força acima de qualquer outra, quando se precisa defender a liberdade.

Elétrico, atômico, genial!

Elétrico, atômico, genial!

Na Guerra do Vietnã, criou-se o Homem de Ferro. Anthony Stark, empresário, milionário e inventor de altíssimo talento é capturado pelos vietcongues e forçado a construir uma arma que os levasse à vitória. Usando sua genialidade, ele constrói uma poderosa armadura e a utiliza para derrotar seus captores. Em tempos de Guerra Fria, os Estados Unidos diziam ao mundo que seus mais ricos empresários estavam empenhados em deter a ameaça comunista e que quanto mais esses empresários enriquecessem, mais eles ajudariam a levar a democracia aos mais remotos cantos do mundo, como o Sudoeste Asiático.

Tanto a Segunda Guerra Mundial quanto a Guerra do Vietnã foram lamaçais onde milhares de vidas foram desperdiçadas em nome da manutenção do poder para o lado vencedor. A Segunda Guerra foi encerrada com a vergonhosa bomba atômica que os Estados Unidos lançaram sobre Hiroshima para mostrarem o quanto eram “super”. A Guerra do Vietnã foi o pior “corridão” que os Estados Unidos tomaram em toda sua história. Ao mesmo tempo, porém, seus serviços de inteligência promoviam ditaduras de direita pelo terceiro mundo afora, no Brasil, inclusive. Aliás, foi em 1964 que o Capitão América voltou aos quadrinhos, reinventado pela Marvel: em um último ato heroico, tentando deter uma bomba nazista direcionada aos Estados Unidos, o herói caiu nas águas geladas do Ártico e lá ficou, congelado, com sua sobrevida garantida pelos efeitos do soro do super soldado. E quem o descobre? A super equipe de Tony Stark, os Vingadores.

O Capitão América desperta nos Estados Unidos da Década de Sessenta, da contracultura, da Guerra Fria e, aos poucos, vai sendo retratado como um homem fora de seu tempo. Já o Homem de Ferro continuava aprimorando suas armaduras e enfrentando seus problemas cardíacos e vilões oriundos da Cortina de Ferro, como o Mandarim e o Dínamo Escarlate. Na medida em que a moralista e maniqueísta Era de Prata chegava ao fim – em parte, provocado pela própria novelização de histórias e humanização de super-heróis promovida pela Marvel – Capitão América e Homem de Ferro foram se tornando personagens mais complexos, multifacetados e realistas. Steve Rogers questiona as diretrizes que o governo – representado pela Shield – lhe repassa e vai se aproximando de questões sociais emergentes na virada dos Sessenta para os Setenta, como as lutas por igualdade racial. O Falcão representa exatamente isso. Tony Stark afunda no alcoolismo e na ostentação tecnológica. Seus inimigos passam a ser outros empresários e fabricantes de armas, na selva do capitalismo selvagem. Entramos na sombria, violenta e materialista Década de Oitenta, com Capitão América e Homem de Ferro sendo eclipsados por anti-heróis como Justiceiro e Wolverine e passamos à globalizada Década de Noventa, com uma equivocada reinvenção dos personagens clássicos da Marvel pela mão de escritores e desenhistas “emergentes” – que traziam a tríade “tiro, porrada e bomba” como linha narrativa e estética – e um acertadíssimo resgate desses mesmos personagens por Kurt Busiek e Alex Ross.

No dia 11 de setembro de 2001, o mundo que conhecíamos chegou ao seu final e, com ele, o Século XX. O mito super-heróico é seriamente abalado pelos aviões que se chocam no World Trade Center. Longe do romantismo que disfarçou o massacre que foi a Segunda Guerra Mundial e da dicotomia moralista e anticomunista da Guerra Fria, o mundo do início do Século XXI estava se tornando hiperconectado e reorganizava-se em redes sociais. Era impossível ser unilateral diante dos acontecimentos: os Estados Unidos eram vítimas de terrorismo, mas também estavam colhendo o que haviam plantado. Por isso, quando o governo Bush invadiu o Iraque, em 19 de março de 2003, contrariando o parecer negativo das Nações Unidas, os Estados Unidos passam a desfrutar do mesmo status fascista que o “eixo do mal” tinha na Segunda Guerra. George W. Bush passa a ser demonizado em escala global, em velocidade de banda larga. Nos quadrinhos, enquanto isso, nem o Capitão América nem o Homem de Ferro estavam no novo campo de batalha. Nada de aventuras no deserto, combatendo milícias jihadistas. As coisas estavam um pouco mais complicadas: os Vingadores haviam sido implodidos pela insanidade da Feiticeira Escarlate (Vingadores – A Queda), a Shield estava investindo em uma série de operações clandestinas de “prevenção” a possíveis ataques de supervilões (Guerras Secretas), os X-Men – eternamente vitimados pelos preconceitos quanto à sua condição mutante – vivem a utópica experiência de uma realidade onde os mutantes são maioria (Dinastia M) e, logo em seguida, vivem o contrário, em um mundo onde os mutantes desapareceram (Dizimação). Isso tudo, talvez, porque o verdadeiro campo de batalha era a discussão ideológica sobre os Estados Unidos pós 11 de setembro. Talvez porque, naquele momento, a população estadunidense vivesse a paranoia generalizada de um próximo ataque terrorista, sem saber direito de onde viria o perigo, ao mesmo tempo em que se questionava a respeito de ações do governo Bush como o Ato Patriótico, que reduzia liberdades individuais e permitia a prisão de pessoas que se desconfiasse ter alguma ligação com o terrorismo. Mitos são a narrativa dos símbolos. Símbolos são expressões de experiências de fé.

Em 2006, Mark Millar e Steve McNiven metabolizaram todas essas narrativas em uma saga que, mais do que as anteriores, explicitava a grande discussão de fundo dessa época: o que sobraria das estruturas políticas e democráticas depois disso tudo? E se os Estados Unidos, país dos super-heróis, se colocava como o guardião dessa mesma democracia para um suposto “mundo livre”, isso o colocava acima de qualquer lei ou vontade? Quem vigiava o vigilante?

Escolha seu lado!

Escolha seu lado!

Quando super-heróis jovens e inexperientes, como muitos dos soldados enviados ao Oriente Médio, causam a explosão de uma escola, vitimando centenas de pessoas, a opinião pública começa a pressionar o governo para que exerça algum tipo de controle sobre os superseres. O primeiro a ser contatado é o Capitão América: a Shield acredita que o herói-símbolo do patriotismo estadunidense não hesitará em aderir ao projeto governamental. E se engana. O veterano não se permite ficar sob a tutela de governo ou ideologia alguma, com medo de que este mesmo governo os engajasse nas batalhas erradas. Quem adere é exatamente o milionário sem limites Tony Stark, que acredita ser necessário o controle sobre os super-heróis para prevenir que eventos como que provocaram a lei não se repitam. E assim, a maioria dos personagens da Marvel se posicionam a favor ou contra a Lei de Registro, aliando-se ao Capitão América – e tornando-se proscritos – ou ao Homem de Ferro – tornando-se agentes do governo. E alguns personagens se mantém à distância, sem engajar-se em um lado ou outro, até a decisão do conflito: Namor, X-Men e Pantera Negra preservam sua autonomia na política super-heróica até o limite do razoável.

Mitos são a narrativa dos símbolos. Símbolos são expressões de experiências de fé.

Por isso, quando o super-herói vestido com a bandeira norte-americana resolve não se submeter mais à autoridade que o criou, pode-se estar dizendo que as instituições políticas, naquele momento, estavam em desacordo com aquele símbolo. A experiência já era outra. E quando o milionário se submete a essas mesmas diretrizes, pode ser possível fazer a leitura de que o livre mercado precise, afinal, ser protegido pelo governo a quem constantemente não aceita se submeter. Afinal, instabilidades geralmente não são boas para atividades econômicas. A não ser quando é possível lucrar com isso.

Rogers e Stark em sua batalha final.

Rogers e Stark em sua batalha final.

Guerra Civil não é sobre medir forças e descobrir quem vence uma luta entre Capitão América e Homem de Ferro. E também não há nenhum supervilão manipulando as coisas para colocar os super-heróis uns contra os outros para, depois, dominar o mundo. Isso ficaria interessante na Era de Prata. No Século XXI a coisa é bem diferente e nada inocente. E o universo cinematográfico da Marvel tenta se aproximar disso.

A adaptação de Guerra Civil, terceiro filme do Capitão América, coloca os super-heróis que foram sendo apresentados desde o primeiro filme do Homem de Ferro, em 2008, em dois times que se opõem. E ainda apresenta dois novos personagens: o Pantera Negra, protetor e soberano da nação africana de Wakanda; e o amigão da vizinhança, Peter Parker, o Homem Aranha. Bem mais contido que o evento dos quadrinhos, o filme lida com a culpa de Tony Stark frente aos acontecimentos que vitimaram inocentes em Sokovia (Vingadores – A Era de Ultron) e a culpa de Steve Rogers diante da situação de seu amigo de infância, Bucky (Capitão América – O Soldado Invernal). Se o filme não discute tão profundamente as questões sociais e políticas como se esperava, ele é rico em motivações verossímeis o suficiente para acreditarmos na história e nos personagens e, o mais importante, não escolhermos um lado. Talvez seja esse o grande ganho do filme: enxergar nos dois protagonistas a tragédia de carregarem sobre seus ombros o peso de serem símbolos de algo maior do que eles. E, principalmente, de terem seus atos colocados sempre em cheque por todos que colocam suas expectativas neles. Essa parece ser uma das grandes chaves de leitura da obra cinematográfica: lidar com expectativas e consequências. Por isso, Tony Stark, tendo aposentado o Homem de Ferro e se tornando um benfeitor que concede centenas de bolsas de estudo para estudantes universitários, precisa lidar com o fato de, tentando proteger o mundo com sua tecnologia, ter criado uma tecnologia que praticamente destruiu um país inteiro; Steve Rogers, no comando dos Novos Vingadores, precisa lidar com o fato de buscar e proteger secretamente um assassino internacional, por causa de sua amizade com ele; Wanda Maximoff, a Feiticeira Escarlate, precisa lidar com a expectativa de controlar seus poderes a ponto de não causar mais acidentes e mortes com eles; o androide Visão precisa lidar com a expectativa de, agindo com logicidade, manter seus criadores a salvo; T’Challa, o Pantera Negra, precisa lidar com as expectativas de seu pai quanto à sua atuação como soberano de seu país, ao mesmo tempo em que precisa honrar o manto simbólico de guardião de Wakanda; e Peter Parker precisa dar conta de colocar suas habilidades a serviço da justiça e, ao mesmo tempo, continuar sendo o sobrinho adolescente de sua tia, May Parker.

Dois símbolos em confronto.

Dois símbolos em confronto.

Expectativas e consequências. Talvez não haja nada mais importante para analisarmos os cenários políticos atuais, em um contexto onde tudo ganha projeção e se espalha rapidamente pelas redes sociais. Assim assumimos símbolos e reforçamos mitos. Assim são orquestradas nossas guerras civis.

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