A mitologia nada mais é do que uma avalanche de discursos e representações. Autores masculinos num discurso a-histórico produzindo a cultura. As representações do mundo antigo, mais precisamente do mundo greco-romano, provêm do olhar masculino. Na Grécia Antiga, a mulher ocupava uma posição inferior a do homem, e possuía pouquíssimos direitos. Ocupava posição equivalente a do escravo que executava trabalhos manuais e era desvalorizado pelo homem livre. Em Atenas ser livre era ser homem e não mulher, ser ateniense e não estrangeiro.

Segundo Chartier, o “mito resolve a distância insuperável que separa os dois sexos. Por outro lado, instala no coração da sua própria narrativa o trabalho impagável da diferença”.

As guerreiras Amazonas são um povo da mitologia grega, que vivia na ilha de Themyscira. A palavra ‘amazona’ tem origem incerta, alguns estudiosos afirmam que vem da raiz ariana há-mazan, que significa ‘guerreiro’, enquanto outros crêem que vem da raiz amastos, que significa ‘aquela sem seio’, um referência ao fato de que, as amazonas mutilavam as meninas ao nascer, removiam as glândulas mamárias do lado direito, para facilitar o tiro de arco. Homero se referia às amazonas como as Antianeirai, o que significa “as que odeiam homens”.

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As amazonas não suportavam a presença masculina. Diz a lenda que em Themyscira era proibida a entrada de homens, pois a rainha Hipólita sofreu a traição de um homem e desde então baniu a entrada deles. Abriam uma exceção caso o homem fosse um empregado encarregado de uma tarefa bem desprezível. Mas estas guerreiras se serviam de estrangeiros e viajantes para engravidar; pois naturalmente, homens eram necessários para a perpetuação de seu povo. Caso o fruto dessa união breve, fosse um menino, a tribo livrava-se dele imediatamente. Algumas versões descrevem como estes meninos eram descartáveis. Alguns dizem que eram aleijados e abandonados para morrer ou, com sorte, abandonados nas estradas para algum viajante encontrá-lo e adotá-lo. Em outras versões, estes meninos eram cegados e abandonados posteriormente, ou ainda mortos ao nascer sem piedade ou remorso. Mas, de acordo com algumas lendas, os mais afortunados eram criados para servir como escravos no futuro. Este relato mítico tenta mostrar as mulheres como pura maldade em conseqüência do ódio aos homens.

Segundo a lenda, estas guerreiras veneravam o deus Ares, que se casou com uma rainha amazona, Otrere, e tiveram uma filha, que mais tarde, ocupou o lugar da mãe. Eram temidas guerreiras, consideradas tão fortes quanto homens, tão selvagens quanto feras, e mais perigosas que víboras, uma vez que eram racionais e astutas. Mas as guerreiras amazonas não seguiam somente os passos do deus Ares, a deusa Ártemis era venerada por todas, deusa virgem que representava a força feminina.

Não é de se estranhar, que estas míticas lendárias guerreiras se tenham tornado um símbolo de liberdade das oprimidas mulheres gregas.

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É dentro deste contexto mitológico que nasce em 1941, a super-heroína, Mulher-Maravilha. Foi a pioneira, a primeira super-heroína das HQs, pela DC Comics. Mas este ícone feminista não foi inventado por uma mulher, e sim por um homem, pelo psicólogo William Moulton Marston (1893-1947). Marston foi um verdadeiro homem da Renascença, além de psicólogo, foi psiquiatra, novelista, jornalista e pioneiro do feminismo.

É nas décadas de 1630 e 1940 (década em que a personagem Mulher Maravilha é criada), que as reivindicações do movimento feminista haviam sido formalmente conquistadas na maior parte dos países ocidentais (direito ao voto e escolarização e acesso ao mercado de trabalho). A possibilidade de a mulher trabalhar ganhou força principalmente no contexto das duas guerras, com grande parte dos homens envolvidos com a guerra as mulheres ocuparam os postos de trabalho vagos. As mulheres norte-americanas, como em todo ocidente recém estão reivindicando a palavra.

A Super-heroína Mulher-Maravilha é a princesa de Themyscira (às vezes, chamada de Ilha Paraíso), filha da rainha das amazonas, Hipólita, a rainha que cedeu seu cinturão a Hércules, nos doze trabalhos; tal cinturão havia sido dado a Hipólita pelo Deus Ares, como simbolo do poder temporal que a Amazona exercia sobre seu povo.

A Mulher-Maravilha veio ao mundo como uma estátua de menina de barro criada por Hipólita. Tão apaixonada por sua escultura, a rainha pediu aos deuses que dessem vida à figura, e foi atendida. Recebeu o nome de Diana. Junto com a vida, os deuses também “deram várias habilidades a garotinha, e a beleza da deusa Afrodite, a força de Hércules, a sabedoria de Atena e a velocidade de Mercúrio”.

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A Mulher-Maravilha, além dos poderes, recebeu dos deuses presentes que ajudam a aumentar suas habilidades: dois braceletes indestrutíveis, que usa para desviar projéteis e raios, uma tiara que pode ser usada como bumerangue e um laço mágico inquebrável que faz com que as pessoas tocadas digam a verdade.

Quando Diana torna-se adulta, Steve Trevos, piloto da Força Aérea Americana colidiu com seu avião na Ilha Paraíso. A Rainha Hipólita decretou que a amazona que vencesse diversas provas entre elas teria a incumbência de levar Steve de volta aos EUA, e se tornaria uma campeã em nome das amazonas em território americano. Proibida de participar por sua mãe, Diana se disfarçou e ganhou a disputa que incluía lutas armadas sobre kangoos (espécies de canguru nativos da Ilha Paraíso), competição de corrida, e aparar balas com seus braceletes. A Mulher-Maravilha adotou a identidade secreta de Diana Prince, uma enfermeira da Força Aérea Norte-americana.

Após décadas de sua criação, Mulher-Maravilha foi adotada até mesmo pelos movimentos feministas norte-americanos, pelo alto grau de capacidade realizadora que Marston creditou às mulheres, especificamente no mito grego das amazonas, cuja atualização empreendeu para dos “fundamentos” minimamente críveis à sua personagem. A Mulher-Maravilha é uma amazona que veio à terra dos homens saindo da Ilha Paraíso para sublinhar, com traços femininos, que todos preferem a paz, mas brigam sim, quando se faz necessário.

Marston adotou uma cosmovisão dualista em sua pesonagem, a Mulher-Maravilha. Ele sugere que a humanidade esta sob duas forças opostas, Ares, Deus da guerra, e Afrodite, Deusa do amor. Ele achava que as mulheres deviam conquistar os homens pelo poder do amor, assegurando a paz na Terra por toda a eternidade.

A mulher ainda é contada, narrada por aqueles que constróem verdades em seus discursos. Marston fala sobre o amor como objeto de poder para a mudança. Simone de Beauvoir, filósofa francesa impactou o mundo com o Segundo Sexo neste mesmo período. Para ela o amor não tem em absoluto o mesmo sentido para um e outro sexo.

Marston cria uma personagem dentro de um contexto histórico, onde a mulher vale tanto quanto um escravo. As mulheres gregas, universo de onde sai a super-heroína Mulher-Maravilha, não são consideradas cidadãs, e não tem direitos ao contrário dos homens gregos. A personagem Mulher-Maravilha é uma amazona, diferente das mulheres gregas, e na literatura estas guerreiras faziam as mulheres questionarem suas experiências de exclusão.

Vale assinalar que Marston dotou sua heroína de um laço, com a propriedade de arrancar dos vilões a verdade absoluta dos fatos, sem restar mentiras. A curiosidade é que Marston, o psicólogo que escreveu os roteiros até 1947, participou também da criação do verdadeiro detector de mentiras.

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