A música Toda Forma de Poder da banda gaúcha Engenheiros do Hawaii diz que “toda forma de poder é uma forma de morrer por nada/ toda forma de conduta se transforma numa luta armada/ a história se repete/ mas a força deixa a história mal contada”, mostra que o poder tem a habilidade de moldar a história. Ela também mostra que quem sabe disso, pode manipular esse poder, que nada mais é do que a verdade dominante em um determinado tempo e contexto. A verdade se produz através do conhecimento, portanto, domine o conhecimento e você vai dominar a todos.

O pensador francês Michel Foucault desenvolveu várias teorias sobre as relações entre o poder e o conhecimento. Em primeiro lugar, ele disse que o discurso de poder só poderia ser analisado através de um contexto histórico, para então, serem analisadas as definições de representações. Sabemos que a maneira como representamos as pessoas e os grupos sociais se dá através do nosso discurso. Basta ver como os caipiras são representados na televisão: um povo simples, ingênuo e sem conhecimento. Ou seja, um povo sem poder, se comparado àquele das grandes metrópoles.

Afinal, segundo o filósofo italiano Antonio Gramsci, as sociedades dominantes produzem uma hegemonia sobre os grupos sociais dominados. Os jovens produzirão uma hegemonia sobre as pessoas de terceira idade que são analfabetos digitais, pois estes não sabem dominar as novas formas de produção de conhecimento. A hegemonia, entretanto, não é permanente e não é reduzida a interesses econômicos ou a um modelo simples de sociedade de classes. Entretanto alguns grupos sociais, em particular, lutam de diferentes maneiras, inclusive ideologicamente, para ganhar o consentimento de outros grupos e ganhar sobre eles um pouco de ascendência tanto em pensamento quanto em prática.

Um bom exemplo é a cultura do funk e do grafitti que ganhou o consentimento de grupos hegemônicos sua valorização como arte de periferia. Arte, mas ainda assim, de periferia. Assim, os grupos hegemônicos mantém a periferia sob um certo controle através do poder de conhecimento. Por outro lado, só a periferia sabe pensar e praticar o funk e grafitti de uma forma que não pareça pasteurizado e fabricado para consumo, de uma maneira que grupos melhor posicionados culturalmente teriam de fazer e, portanto, perderiam sua legitimidade com o público.

Dentro das teorias de Foucault, o pensador francês diz que a junção de poder e conhecimento têm a função de produzir uma “verdade” sobre a população. Valorizando determinadas características culturais, sociais e de corpos em detrimento de outras. Dessa forma, culturalmente, o erudito será superior ao popular; socialmente, o velho rico será superior ao emergente; e nos corpos, o masculino prevalece sobre o feminino e o branco sobre outras etnias. O conhecimento ligado ao poder não somente assume o papel da “verdade” como tem o poder de tornar-se ele mesmo a verdade. Todo conhecimento, aplicado ao mundo real, tem efeitos reais e, nesse sentido, ao menos, se torna verdadeiro e se torna a verdade.

“A verdade não está fora do poder… A verdade é uma coisa deste mundo; ela é produzida apenas através da virtude de múltiplas formas de limitações. E isso induz a efeitos regulares de poder. Cada sociedade possui seu regime da verdade, sua ‘política geral’ da verdade; ou seja, os tipos de discursos que aceitam essa verdade e cumprem suas funções como verdade, os mecanismos e instâncias que permitem a alguém distinguir afirmações verdadeiras das falsas, os meios por quais cada uma é sancionada… o status daqueles que são saturados com dizeres que contam como verdade” (FOUCAULT, 1980, p. 131)

Outra teoria que solapa o conhecimento como forma de poder é a do capital cultural, de Pierre Bourdieu. O outro pensador francês, que veio de classes mais baixas que seus colegas da École de France, que também vinha do interior das grotas da França, tinha a teoria de que para que o homem possa ter ascensão social e fazer parte da hegemonia, era necessário que tivesse ou capital econômico, ou social ou cultural. O capital econômico era o dinheiro, que podia ser herdado ou conquistado, ou ganhado na loteria. O capital social seriam os contatos que o homem faria durante sua vida e, através deles ascenderia socialmente. Por fim, haveria o capital cultural, que é todo o conhecimento, o saber-fazer, o know-how, savoir-faire, que o diferenciaria dentre os outros e lhe tornaria sujeito essencial em uma sociedade.

Todas essas três são formas de poder, mas apenas o capital cultural pode ser construído através de conhecimento. Mas, se nem todos possuem o mesmo acesso ao conhecimento, como todos terão o mesmo acesso a se realizar na vida e ascenderem socialmente? Por isso as discussões sobre cotas nas universidades se fazem necessárias. Afinal, negros e pobres não possuem o mesmo aporte ao capital econômico, social e cultural que brancos e ricos e, portanto, não tem voz nem vez na vida. Se não detiverem o conhecimento, não deterão o poder e, portanto, nunca se tornarão verdade, verdadeiros, como dignos representantes dos seres humanos e que podem, sim, vencer na vida.

Na mesma década de 80 dos Engenheiros, Kid Abelha e Cazuza gravaram música “De Quem É o Poder?”, que fazia essa pergunta e respondia “uns dizem que ele é de Deus/ outros, do guarda da esquina/ uns dizem que é do presidente/ e outros, quem vem mais de cima”. Em tempos de contestação de autoridade executiva do país e das verdades de uma imprensa que insiste em se autoproclamar “imparcial”, ou das empresas que “vêm mais de cima”, moldando autoridades e imprensas, fica necessário mesmo perguntar: afinal, De Quem É Poder?

Encontramos a resposta na letra de É o Poder, da mulher, negra, pobre, grávida adolescente, separada, depressiva e nada hegemônica cantora curitibana Karol Conká “sociedade em choque, eu vim pra incomodar/ aqui o santo é forte, é melhor se acostumar/ quem foi que disse que isso aqui não era pra mim/ se equivocou/ fui eu quem criei, vivi, escolhi, me descobri/ e agora aqui estou”.

Karol vem dos movimentos que estão se legitimando sobre as velhas hegemonias e exigindo o poder, claro, à custa de muito conhecimento de causa. Da sua própria causa. Assim como os poderes que hegemonizaram a sociedade fizeram anteriormente. Como a sociedade e os poderes que a regem estão em constante transformação e ebulição, é natural que as hegemonias mudem de um contexto para outro, à medida que o discurso e o poder sobre o conhecimento do discurso é apropriado, ou seja, a noção do que é realmente verdadeiro, autêntico e puro em face àquilo que é forçado, pasteurizado, fabricado e completamente parcial.

Para se aprofundar mais nesta questão, recomendo os livros: 
FOUCAULT, Michel. Power/knowledge. Brighton, Harvester, 1980.
HALL, Stuart. The work of representation. In: EVANS, Jessica, HALL, Stuart, NIXON, Sean. Representation. California: Sage Publications, 2013.

Texto publicado originalmente na Revista TrendR do Medium.com sob o link:
https://trendr.com.br/de-quem-e-o-poder-e60920886a01


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