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Batman (Ben Afleck) encara o Superman (Henri Cavill): o medo do desconhecido e a defesa como ataque.

O universo dos super-heróis parece ter se tornado o novo gênero do cinema norte-americano. Assim como os faroestes, filmes bíblicos, ficção científica e tantos outros estilos que marcaram época e continuam a ser produzidos, participar de um filme que aborde o universo da Arte Sequencial tem alavancado muitas carreiras artísticas e salvado outras. Se estas adaptações não são de hoje – já havia seriados cinematográficos com super-heróis na década de 1940 – foi em 2008 que o gênero começou a se firmar: o filme Homem de Ferro, ao adaptar um personagem clássico da Marvel, desencadeou o ousado projeto da editora de elaborar um universo cinematográfico compartilhado por seus personagens, que se desdobrasse em diferentes filmes. Esta primeira fase teve sua culminância em Os Vingadores, de 2012, quando todos os heróis apresentados se reúnem para combater uma ameaça em comum. E este projeto firmou o gênero de super-heróis no mundo do cinema por conseguir adaptar a principal dimensão de fantasia que os quadrinhos de superaventura trazem, que é a fidelidade a uma cronologia que aprofunda a identidade dos heróis e, consequentemente, os humaniza. Foi a Marvel que deu início a este jeito de contar histórias, com o Quarteto Fantástico, em 1960 e  sua grande concorrente, a DC Comics, logo adotou o mesmo mecanismo literário, aproximando ícones culturais como Superman e Batman do cotidiano de seus leitores. Cabe lembrar que foi a DC que, de certa forma, criou a figura do super-herói quando, em 1938, lançou a primeira história do Superman. No cinema, porém, as coisas foram bem mais lentas para a DC: ao mesmo tempo que a editora, que faz parte do conglomerado da Warner, entregou verdadeiros clássicos como os filmes do Superman com Christopher Reeves, construiu um monumento à cultura pop como o seriado camp do Batman na década de 1960 e produziu dois filmes autorais sobre o mesmo personagem, dirigidos por Tim Burton, ainda não havia conseguido dar unidade ao seu universo de superseres nas telas de cinema. Mesmo a oscarizada trilogia do Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolam se constituiu como uma história fechada, sem a existência de outros personagens da editora. Isso começou a mudar com o novo filme do Superman, de 2013.

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O Superman de Henri Cavill.

 

Dirigido por Zack Snyder, o filme recontava a história de origem do Superman, estabelecendo um universo coeso de personagens através de easter eggs que mostravam a existência de outros superseres da DC Comics. O final, com Superman confrontando o kryptoniano Zod e causando a destruição de Metrópolis, deixava o caminho aberto para uma continuação na qual os personagens tivessem que lidar com as consequências de seus atos. E aí veio a surpresa: a continuação desta história não seria uma sequencia de O Homem de Aço, mas o confronto entre Superman e Batman, a partir do qual se estabelecerá a origem da Liga da Justiça. E isso significava, sim, que o Universo DC, estava tendo sua gênese oficial nos cinemas. A grande questão, agora, é saber como essa história será contada. E aqui, precisamos voltar ao início do texto: o desenvolvimento de uma cronologia coesa na histórias da Marvel e da DC introduziu, nestas histórias, um elemento oriundo da compreensão judaico-cristã de realidade. Na perspectiva destas tradições religiosas, a experiência de sagrado se dá no tempo e a ação de Deus constitui aquilo que passa a ser reconhecido como História da Salvação. Ora, o que são as histórias de super-heróis senão a narrativa de “eventos salvíficos” protagonizados por superseres? E, se tratando do primeiro super-herói, o Superman, a relação de suas histórias com os referenciais religiosos da cultura ocidental são quase explícitos.

 

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O Batman de Ben Affleck

Assim, ao assistir O Homem de Aço, acompanha-se um roteiro explicitamente teológico, com referenciais muito claros a respeito da identidade messiânica do Superman e, sendo esse o filme que desencadeia a cronologia cinematográfica da DC, aquilo que vem por aí em Batman V Superman, parece ser mais direto nesse sentido. Até agora guardado a sete chaves e cercado de polêmicas – como a escalação de Ben Affleck para encarnar o Batman – o filme teve seu primeiro trailer oficial lançado em abril e o segundo nesta semana, na Comic Con de San Diego. Em ambas oportunidades, a divulgação do trailer causou uma enorme agitação nas redes sociais, com sites especializados fazendo dezenas de análises de texto e imagens, na expectativa de antever que história será contada no filme. O primeiro trailer abre com o discurso de Lex Luthor (Jesse Eisenberg) sobre o suposto salvador da humanidade, questionando o quanto se pode confiar em alguém tão controverso e lembrando o quanto a humanidade sempre teve problemas com o seguimento de lideranças carismáticas. Esta fala é entrecortada por outras, que lembram a origem alienígena do Superman e expressam a desconfiança de parte da população quanto a ele. A sequência é concluída mostrando a estátua do Superman com uma pichação onde se lê “false god”(falso deus). E aí parece estar colocada a problematização que conduzirá a trama: Lex Luthor ou Superman? Em qual destes dois salvadores a humanidade deve depositar sua fé? Qual dos dois oferece mais “garantias”? Qual deles cumprirá suas promessas? E este é o espaço onde entra o Batman. Diria que Bruce Wayne, que parece ser norteado pelo desencantamento, pode fazer o papel de “teólogo” no filme, pois será ele que porá os supostos salvadores à prova. Ou, talvez, será análogo à figura de Paulo de Tarso, que perseguia cristãos no Império Romano, até se confrontar com o próprio Cristo, que lhe aparece e pergunta” “Por que me persegues?” (At 9, 4). No final do trailer, Batman confronta Superman sobre um telhado e pergunta se ele sangra: se o Superman remete ao Messias, que não pertence a esse mundo, mas por ele dá a própria vida, a referência ao sangue deste messias é bastante clara.

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O Lex Luthor de Jesse Eisenberg

 

O segundo trailer, lançado na Comic Con de San Diego, é bem mais longo e aprofunda algumas nuances do primeiro. Ele abre com o Superman apresentando-se para seu julgamento no Congresso Americano e, em seguida, revela que um dos prédios destruídos em Metróplis pertencia à Fundação Wayne e que, naquele dia, Bruce Wayne estava lá. Nós o vemos correndo para o meio dos escombros, salvando uma criança e lançando um olhar furioso para o céu, onde os alienígenas travavam seu combate. Neste trailer também temos a figura de Lex Luthor revelada e, pelo que se percebe, ele está por trás de toda campanha de desconfiança lançada contra o Superman. De certa forma, Luthor deverá desempenhar um papel diabólico na trama, no sentido literal da palavra “diabólico”. Antônimo de “simbólico”, que significa reunir aquilo que estava separado, “diabólico” significa separar o que estava unido, sendo este o entendimento judaico-cristão desta palavra e seu mito, o “diabo”. Acompanha-se, então, no trailer, a preparação de Batman para confrontar o Homem de Aço e também seus “demônios interiores”, como a culpa pela morte do Robin nas mãos do Coringa. Clark Kent critica o Batman, dizendo que ele é um “reino de terror em um homem só” e Alfred (Jeremy Irons) alerta Bruce Wayne de que o Superman não é o inimigo. O trailer fecha com Luthor, irônico, dizendo “the red capes are coming!”, repetindo o alerta de Paul Revere na Revolução da Independência dos Estados Unidos e mostrando a capa vermelha do Superman. Se Luthor faz referência a uma revolução histórica, este trailer pode estar fazendo referência a uma espécie de “revolução cinematográfica”, anunciando que os ícones criados pela DC Comics chegaram para se estabelecer também nos templos das telas brancas. Aguardemos o filme…

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