Por Thuanny Bedinote

A série Jessica Jones, da Netflix, passa-se em 13 episódios e é derivada do HQ Alias (2001 a 2004), lançada com o selo Marvel Max, por Brian Michel Bendis e Michael Gaydos. A produção cinematográfica tem alguns aspectos diferentes do HQ.  O mais importante é caráter inovador da personagem: temos os temas mais diversos relacionados ao cotidiano e as relações interpessoais e pessoais.  Relações desprovidas de sentimentos verdadeiros, mas de interesses próprios, relações abusivas e violentas, interiorizados na questão de gênero.

Mas o que é gênero?  Segundo, Margareth Rago, é a “Construção social e cultural das diferenças sexuais, assim se definiu o ‘gênero’.” (2012, p.50). Para Rago, a aproximação e utilização do termo gênero com o feminismo torna-o mais amplo, enquanto que a teoria do feminismo se aprimora dentro dos estudos de gênero, designando as relações sociais ente os sexos. Rago complementa: “Na realidade existem muitos gêneros, muitos ‘feminismos’ e ‘masculinos’, esforços vêm sendo feitos no sentido de se reconhecer a diferença dentro da diferença, apontando que a mulher e homem não constituem simples aglomerados; elementos como cultura, classe, etnia, geração, religião e ocupação devem ser ponderados e intercruzados. […]”

A HQ e a série se enquadram nessa perspectiva e nos apresentam personagens  que sofrem com abusos e dominação, ou  quem prática. Esses personagens rodeiam a vida de Jessica Jones, uma detetive particular. Certamente a própria super-heroína já praticou algum tipo de abuso de poder, ou usou suas relações afetivas para benefício. Nessa produção temos o vilão Killgrave (Homem Púrpura) que prática violência e crimes, dando ordens às pessoas. Para o personagem, esses abusos não causam estranheza. São abusos de poder e psicológicos que se traduzem como violência simbólica. Não são vistas, mas causam danos emocionais e psicológicos nas vítimas. Mas o que é violência simbólica? Segundo, Bourdieu , “Sempre vi na dominação masculina, e no modo como é imposta e vivenciado, o exemplo por excelência desta submissão paradoxal, resultante daquilo que eu chamo de violência simbólica, violência suave, insensível, invisível a suas próprias vítimas, que essencialmente pelas vias puramente simbólicas da comunicação e do conhecimento.” (2014, p.12)

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Esses casos de violência simbólica são percebidos no desenrolar dos capítulos, também no desenvolvimento das histórias dos personagens. A amiga de Jessica, Trish, tem uma infância e adolescência violada pelo abuso cometido pela mãe adotiva. A advogada Jeri Horgarth demonstra nas suas relações pessoais e interpessoais a procura do beneficio próprio, mesmo que precise fazer ameaças para conseguir o que quer. Debruçado sobre esses tipos, Killgrave, mostra sua insanidade: não entendendo como são graves seus atos, tampouco parece perceber quando a vítima relata  sentimento negativos sobre o ato ordenado. Quando Jessica fala diretamente ao Homem Púrpura que ela fez coisas que não queria ao seu comando como ter relações sexuais não consentidas, ele fica quase que surpreendido, como se o poder não existisse e ela estivesse participando daquele momento por vontade própria.

Os comportamentos desse personagem e de Jessica Jones servem como demonstração de um quadro social, pensando que o machismo ainda impregnado culturalmente, molda homens próximos à personalidade do Killgrave. Sem a intenção de generalizar, são elementos que podem ser pensados com relação aos índices de feminicídio no Brasil. Ataques violentos e assassinato de mulheres, ocorrem  pelo sentimento de posse e obsessão.

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Outro detalhe importante para ser destacado é a postura “livre” da super-heroína, que foge dos padrões estabelecidos para mulheres. Jessica Jones definitivamente não é “Bela, Recatada” e muito menos “do lar”. A personagem passa praticamente toda a série preocupada em ter a mente novamente dominada pelo vilão, teme ser subjulgada e passar pelos abusos, onde ela tenta manter a mente “fora do ar”, bebendo muito, também escolhe seus parceiros. Desta forma a personagem e a série renovam as produções da Marvel, principalmente tratando-se de uma mulher extremamente forte, com super-poderes, mas comum e sem uniforme.

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Tanto na HQ quanto na série, mostram uma “realidade” dentro dessa ficção muito próxima da vivência por mulheres e homens. A violência simbólica e a ideia de posse, é intensa e visível na produção, poderíamos acrescentar a denominação “objeto”, no caso de Jones, até mesmo de Trish, mas as personagens aparecem de forma empoderada descartando o termo. Assim como propomos,  esta breve análise percebe  a participação das super-heroínas como motivadoras e representantes de uma figura empoderada, também  discutir as diferenças, a partir das Histórias em Quadrinhos.

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